Aos 90 anos completos, seu Emídio Lopes da Silva saiu de Orizona nesta quarta-feira (17) rumo à cidade de Trindade para a Romaria do Divino Pai Eterno e os desfiles de carros de boi. Há 21 anos consecutivos, o carreiro faz o trajeto junto com filhos e netos, mas a história de tradição e fé começou aos 3 anos de idade quando fez o percurso pela primeira vez acompanhado de seu pai, em 1939. Emídio, figura conhecida entre os carreiros, é um dos personagens da série documental “Quando a Fé Caminha”, que acompanhou a comitiva dos carreiros de Orizona em 2025 e foi lançada no último mês de maio.
“Quando era pequeno ia com os pais. A primeira vez foi quando eu tinha três anos. Fiquei alguns anos sem ir mas há 21 anos vou com meus filhos e netos. A gente vai com tanta fé no Divino Pai Eterno que não tem nada ruim. Não sinto nem canseira”, brinca o carreiro.
A viagem passa por diversas cidades como: São Miguel do Passa Quatro, Bela Vista, Hidrolândia, Aragoiânia e Abadia, antes de chegar a Trindade. A previsão é concluir o trajeto chegando ao destino final no dia 30 de junho. O dia 1º é destinado ao descanso dos carreiros e no dia 2 será realizado o tradicional desfile de carreiros que reúne carreiros de diversas cidades brasileiras. Em 2025 foram cerca de 500 carros de boi ao todo, sendo 432 veículos no desfile oficial, com representantes de mais de 130 cidades brasileiras.O desfile dos carreiros é uma das manifestações culturais mais fortes do Centro-Oeste e possui reconhecimento como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Iphan.
Durante 16 dias, a equipe da Skambau Produções e do Instituto Skambau acompanhou uma das mais tradicionais peregrinações do estado de Goiás. A série registra a jornada dos carreiros de Orizona até Trindade, revelando histórias de devoção, resistência, memória e pertencimento. O 6º episódio foi ao ar nesta quarta-feira (17).
Idealizada e dirigida por Manoela Barbosa, historiadora, doutora em Ciências Ambientais, pesquisadora e gestora de projetos com raízes familiares em Orizona, a produção é composta por 11 episódios. Os registros audiovisuais foram realizados por Roger Martins, produtor cultural, cineasta preto e aquilombado e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio (Promep-UEG).
Pela primeira vez, uma equipe audiovisual acompanhou integralmente a jornada dos carreiros de Orizona até Trindade, registrando os desafios, encontros, celebrações e momentos de fé vividos ao longo de toda a peregrinação.
Responsável pelo registro das imagens da série, Roger Martins afirma que, se existe uma palavra capaz de definir o que significa ser carreiro em Orizona, essa palavra é fé. “Simplesmente não consigo explicar com palavras o tamanho da devoção que esses carreiros têm, da força, do acolhimento, da união e do amor. Estão há décadas na jornada, em uma prática passada por gerações, marcada por laços familiares e muita, muita fé”, destaca.
Para Manoela Barbosa, a série representa um compromisso com a memória, a identidade e o patrimônio cultural goiano. “Esta série nasce do afeto, do pertencimento e da responsabilidade de registrar uma tradição que atravessa gerações e faz parte da minha própria história familiar. Meu avô paterno, Joaquim Barbosa, teve relação com essa cultura, e foi a partir das minhas raízes em Orizona e do trabalho desenvolvido junto aos carreiros nos últimos sete anos que construímos uma relação de confiança capaz de tornar este registro possível. Documentamos uma caminhada, mas também buscamos revelar as pessoas, as memórias, os saberes e a fé que mantêm esse patrimônio vivo. Trata-se de uma herança coletiva que merece ser conhecida, reconhecida e preservada.”
A diretora destaca ainda a experiência de imersão vivida pela equipe durante a produção. “Durante 16 dias, Roger, cineasta e membro da nossa equipe, caminhou junto aos carreiros. Compartilhou a poeira da estrada, o silêncio das madrugadas, os desafios do percurso, as histórias de família e os momentos de oração. Foi acolhido e integrado à comitiva. O resultado é uma série construída com confiança, respeito e admiração por quem mantém viva essa manifestação cultural. Os carreiros carregam memórias, modos de vida, valores comunitários e uma das expressões mais potentes da cultura popular goiana. Registrar essa jornada é contribuir para que futuras gerações compreendam a riqueza humana, cultural e espiritual existente por trás desse patrimônio. Como mulher, pesquisadora e realizadora audiovisual com raízes em Orizona, sinto que este é um dos trabalhos mais importantes da minha trajetória. Existe uma responsabilidade muito grande quando contamos a história da nossa própria comunidade. Por isso, cada episódio foi construído com escuta, sensibilidade e compromisso com a verdade dessas pessoas e dessa caminhada.”
Ao longo dos episódios, o público acompanha os bastidores da peregrinação, os preparativos dos carros de boi, os pousos realizados ao longo do percurso, as histórias de famílias que mantêm esse patrimônio cultural há gerações e os desafios enfrentados durante a jornada até Trindade.