Um casarão histórico localizado em Ouro Preto revelou um achado arqueológico considerado raro por pesquisadores: desenhos e grafismos ligados à cultura africana e ao período da escravidão escondidos há quase 300 anos em um porão colonial. A descoberta aconteceu durante uma reforma iniciada em 2017 em um imóvel da Rua Conde de Bobadela, antiga Rua Direita, no centro histórico da cidade.
Segundo pesquisadores, os registros mostram cenas do cotidiano, figuras geométricas, embarcações, aves e possíveis referências à ancestralidade africana. Os desenhos foram encontrados em um espaço apertado, escuro e sem energia elétrica até os anos 1980, condição que teria ajudado na preservação das imagens ao longo dos séculos.
De acordo com reportagem do Metrópoles, o imóvel havia sido comprado pela família proprietária na década de 1980 e seria transformado em restaurante. Durante as obras, trabalhadores encontraram marcas nas paredes do porão, dando início a estudos conduzidos por arqueólogos e historiadores ligados à Universidade Federal de Minas Gerais.
Os especialistas identificaram cerca de 26 registros produzidos com diferentes técnicas, incluindo riscos gravados na parede e pinturas feitas com pigmentos escuros e avermelhados. Parte das imagens só conseguiu ser visualizada com iluminação especial e tratamento digital devido ao desgaste provocado pelo tempo. Pesquisadores afirmam que não há, até o momento, outro conjunto semelhante conhecido no mundo em contexto urbano colonial.
Um parecer técnico assinado em 23 de março de 2026 oficializou o reconhecimento oficial do imóvel como sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Para estudiosos, o achado ajuda a recontar a história da escravidão no Brasil sob a perspectiva das pessoas escravizadas, além de levantar a possibilidade de que outros registros semelhantes ainda estejam escondidos em antigas construções de Ouro Preto.