Um acidente doméstico mudou completamente a vida do fotojornalista Antônio Gaudério e de toda a família. Aos 49 anos, ele sofreu uma queda do segundo para o primeiro andar durante uma visita a uma obra em Itacuruçá, no Rio de Janeiro, bateu a cabeça e teve um traumatismo cranioencefálico. Após dias em coma, Antônio acordou sem saber falar, andar ou reconhecer a própria família — e todas as memórias que havia construído até então desapareceram.
Segundo relato da filha, a gestora de arte Ana Aurora Borges, de 31 anos, à Revista Crescer, Antônio era um fotojornalista conhecido por trabalhos de denúncia e pela cobertura de temas como exploração sexual infantil, trabalho infantil, miséria e fome. Apesar da rotina profissional arriscada, foi durante um feriado em família que aconteceu o acidente. A gravidade do quadro exigiu que ele fosse levado de helicóptero ao Rio de Janeiro e passasse por uma cirurgia para retirada de parte da massa encefálica.
Ao despertar do coma, o jornalista precisou reaprender habilidades básicas. Aos poucos, voltou a andar e falar, mas as lembranças nunca retornaram. Ele não reconhecia as filhas, a esposa ou a própria casa. A família investiu em acompanhamento com fonoaudiólogos, fisioterapeutas, neurologistas e psicólogos, além de atividades como música, pintura, desenho e exercícios físicos. Fotografias e histórias do passado também foram usadas na tentativa de estimular as lembranças, mas sem sucesso.
Para Ana, aceitar que o pai não recuperaria a memória representou uma espécie de luto. Com o passar dos anos, porém, a família passou a construir novas experiências com Antônio. Algumas características anteriores ao acidente permaneceram sem uma explicação clara: ele ainda se lembra da letra de determinadas músicas gaúchas da infância e manteve o sotaque do Rio Grande do Sul. Atualmente, apresenta sequelas como perda da visão do olho esquerdo, dislexia e algum grau de afasia, mas conquistou maior independência.
Hoje aposentado por incapacidade, Antônio leva uma rotina muito diferente daquela dos tempos de fotojornalista. Ana afirma que a relação entre os dois também foi reconstruída e se tornou mais tranquila. Para ela, é como se tivesse conhecido dois pais: aquele de antes do acidente e o que surgiu depois. “A gente perdeu aquela pessoa antiga, mas a gente ganhou uma nova, que é tão genial quanto”, resumiu à Crescer.