A Copa do Mundo de 2026 movimenta milhões de torcedores e também impulsiona o mercado das apostas esportivas no Brasil. Em meio à presença massiva das chamadas bets nas transmissões, redes sociais e campanhas publicitárias, especialistas em saúde mental alertam que o torneio pode se transformar em um gatilho para pessoas com transtorno do jogo, conhecido como ludopatia.
Levantamento da Kantar mostra que sete em cada dez brasileiros pretendem acompanhar a competição. Além das transmissões, o público busca notícias, vídeos de melhores momentos, estatísticas e conteúdos nas redes sociais. A pesquisa aponta ainda que 37% dos brasileiros fizeram ou pretendem fazer apostas durante o Mundial. Entre as modalidades mais populares estão palpites sobre o resultado das partidas, número de gols e a seleção campeã.
Segundo a psicóloga e psicoterapeuta Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef), a Copa do Mundo aumenta a exposição aos jogos e às campanhas publicitárias das casas de apostas, criando um ambiente favorável para recaídas e comportamentos compulsivos. Para ela, o clima de entusiasmo coletivo reduz a percepção de risco e favorece decisões impulsivas.
O crescimento do setor ajuda a explicar o fenômeno. De acordo com estudo da Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting+Technology, as apostas esportivas movimentaram cerca de R$ 37 bilhões em receita bruta em 2025. O mercado já reúne mais de 25 milhões de usuários e se consolidou como um dos segmentos de maior expansão da economia digital brasileira.
Dados do Instituto Locomotiva indicam que cerca de 52 milhões de brasileiros maiores de idade já realizaram apostas esportivas. Entre os apostadores, 79% pertencem às classes C, D e E, e 64% afirmaram utilizar a principal fonte de renda para financiar as apostas, um dado considerado preocupante por especialistas devido ao impacto no orçamento familiar.
Para a psiquiatra Cíntia Sayd, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a sequência intensa de partidas durante a Copa, somada à facilidade de acesso por smartphones e à crença de que o conhecimento sobre futebol permite prever resultados, contribui para manter o cérebro em estado permanente de recompensa. Ela explica que a normalização das apostas como parte da celebração esportiva dificulta a imposição de limites.
Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental, a ludopatia pode ser agravada pela exposição constante a propagandas, notificações e estímulos visuais associados às bets. Especialistas alertam que, durante a Copa do Mundo, a multiplicidade de opções de apostas — que vão além do resultado final e incluem gols, cartões, escanteios e desempenho individual de jogadores — favorece o comportamento compulsivo e aumenta os riscos de dependência. A reportagem é baseada em entrevistas concedidas por especialistas à DW Brasil.